
Por Leandro Gustavo Verly.
O olhar é sereno: “Era perigoso, o rio, ainda mais na cheia, corria muito rápido; mas nós éramos crianças e gostávamos de nadar.
Tinha um barranco e nós pulávamos”. Este é um pequeno trecho do que ouvi de um senhor, dias atrás. Referia-se à sua infância vivida aqui em Manhuaçu, quando era possível usufruir, sem medo, de nosso rio.
Confissões como essa nos mostra o quanto é fascinante imaginar a velha Manhuaçu ainda viva em nossos dias atuais, através de pessoas como esta. Notei, então, que há uma estranha sincronia entre o presente e o passado, como se não dissociassem. Não sei como provar, mas parece ser óbvio que embora o passado tenha ficado para trás, ainda permanece em nosso meio a sua presença, misturado com o presente.
Ao menos esta é a conclusão de quem entrar pelo asilo da Sociedade São Vicente de Paula, respirar seu ar e retornar à rua. Este é um momento de reflexão profunda, razão pela qual afugenta muita gente.
Salvo aqueles trabalhadores (imagino que muitos voluntários) a grande massa não parece se interessar pelo destino de homens e mulheres que construíram – e constroem – a história da sociedade local.
Falo todas estas coisas acima porque fiquei responsável por escrever “As histórias da história de Manhuaçu” e concluí não haver forma mais eficiente de começar este trabalho senão pelo passado – mas não aquele que agoniza em arquivos – e sim o qual temos como testemunha de anos anteriores pessoas comuns, personagens vivas os quais nos ajudam a responder a várias questões. Podemos chamá-los “livros lúcidos e eficazes” capacitados a nos narrar páginas inéditas sobre uma busca tão urgente.
E para provar a eficácia destes “documentos vivos” observamos que suas histórias nunca cessam: passam da referencia do rio para a dos trilhos e vielas, muito existente sobretudo quando do começo da urbanização da cidade. Locais onde, “depois das seis”, criança não passava por medo de assombração. Contudo, hoje não é tão diferente: não passam por medo de serem assaltados!
Assaltos! Assaltos! Assaltos! Algumas vezes nos pegamos amedrontados com esta nossa realidade contemporânea. Mas seguindo a narração que ouço, consigo imaginar um carro de boi que teria cruzado o quê hoje é uma das ruas principais da cidade. “Eram belos aqueles carros puxados pelas juntas de boi…” Dizia-me um senhor magro que fumava, enquanto conversávamos.
Esta referência foi levando-me a uma outra reflexão. Olhava pela janela e ia vendo do lado de fora prédios modernos, carros top de linha, celulares que tiram foto e navegam pela web, out-doors com promessa de um futuro promissor. “Foi em 1930… Íamos eu e meu pai, sentados, satisfeitos”, continuava emocionado o senhor, já com seu cigarro apagado E, em meio à modernidade do presente, o som daquele carro-de-boi prosseguia o seu passeio pela Manhuaçu de 1920, a cruzar a modernidade sem que dêem por ele.
E lá vai indo com o chiar de suas rodas preguiçosas e fortes a cruzar defronte os velhos armazéns de café – grandes galpões a receberem gente humilde de todos os cantos da região para negociarem a venda do produto. Gente que nem nos sonhos supõem a idéia de terem em suas casas a luz elétrica. Muitos voltam para casa montados em cavalos sacrificados. Chegam em casa pela noitinha e pegam de suas águas fervidas no fogão de lenha para tomarem o banho. 19:00 horas e praticamente o fim do dia. Novela? Jornal Nacional? Tragédia do Air France 447? Nada disso! Apenas o respirar tranqüilo de um homem simples.
Assim argumento porque entender o passado de uma cidade é compreender que sua história é maravilhosamente inteligível se a lermos a partir de seu lado humano. As opiniões humanas, ainda que olhadas com severa desconfiança pela produção histórica, revela um universo fértil e atraente. Um universo capaz de trazer à tona elementos e informações que afloram a curiosidade e o prazer de quem estuda os anos idos.
Foi o que ocorreu uma vez em um culto realizado na primeira igreja Presbiteriana, referente à comemoração de seu centenário. Pouco mais de cem anos de um trabalho extraordinário não deixa de produzir nas mentes atentas questionamentos sobre as histórias que os membros desta igreja compartilharam, ao longo do tempo, com a comunidade local. Para puxar o fio da imaginação, basta lembrar que nem sempre é fácil seguir adiante com uma bíblia sob o braço, trabalhando para o bem. Experiências que se somam à dos comerciantes, das primeiras casas de comércio, os primeiros clientes…
…Lembrou-me subitamente que já em 1880 – um pouco mais, um pouco menos – havia pendências na justiça devido à inadimplência. Ao menos é o que temos revelado em alguns documentos da época. Presente e passado que mais uma vez se ajustam como uma coisa só, ora pelo bem ora pelo mal. Única conclusão da crônica; mas isso basta!
leandrogustavoverly@yahoo.com.br
Tags: história, manhuacu, rio Em: História das Histórias
Muito bom o texto. Eu como manhuaçusense de nascença n pude deixar de reviver grandes lembranças.